Esgotamento na gestão escolar: o que os dados de 2025-2026 mostram sobre diretores

Há um padrão que aparece de forma consistente em pesquisas recentes sobre educação em diferentes países: o desgaste de quem dirige uma escola tem crescido mais rápido do que o desgaste de quem está em sala de aula. Não é um dado isolado — é uma tendência que se repete em levantamentos de metodologias diferentes, em contextos diferentes, e que ajuda a explicar por que tanta liderança escolar boa está saindo do cargo, ou pensando nisso, justamente nos anos em que mais se pediu dela.
Este post reúne o que essa pesquisa mostra e o que costuma ajudar — e no final explica, em uma frase, onde entra o EducaEinstein nessa conversa.
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O que os números mostram
No Reino Unido, o Teacher Wellbeing Index, aplicado desde 2019 pela organização Education Support, registrou em 2025 o pior resultado da série histórica: 86% dos líderes escolares relataram estresse relacionado ao trabalho, contra 84% no ano anterior — um número mais alto do que o relatado pelos professores em sala. O relatório de bem-estar de 2026 da Tes, com mais de 1.400 profissionais ouvidos, aponta 71% dos educadores com carga de trabalho descrita como insustentável, e 83% apontando a carga de trabalho como principal causa de estresse.
Nos Estados Unidos, o levantamento State of the American Teacher, conduzido pela RAND Corporation, mostrou em 2026 que 18% dos professores pretendiam deixar a profissão — e a mesma organização vem documentando, em edições anteriores da série sobre diretores, que o estresse de professores e diretores roda em ritmo bem acima do restante da força de trabalho americana, um padrão que se agravou desde a pandemia e nunca voltou ao patamar anterior.
No Brasil, o retrato é outro, mas conectado. O Censo Escolar da Educação Básica 2025, divulgado pelo INEP, mostra que o país tem hoje 148.566 diretores em exercício — cerca de 80% mulheres — e que a forma de acesso ao cargo está mudando: o ingresso por processo seletivo combinado com participação da comunidade escolar cresceu, nas redes municipais, de 3,9% em 2021 para 8,2% em 2025, enquanto o acesso puramente por indicação política caiu 33,5 pontos percentuais nas redes municipais no mesmo período. É uma gestão escolar cada vez mais profissionalizada — o que também significa mais exigência técnica sobre quem assume a cadeira.
Por que a liderança carrega mais peso do que a sala de aula
A explicação que aparece com mais frequência nesses estudos não é motivacional — é estrutural. Diretor e coordenador pedagógico não respondem só pelo ensino: respondem por matrícula, por financeiro, por conflito entre famílias, por conformidade legal, por manutenção predial, por crise de saúde mental de aluno, por comunicação de crise quando algo dá errado. Tudo isso ao mesmo tempo, e frequentemente sem uma equipe de apoio dimensionada para dividir essa carga.
Some a isso um fator que os próprios relatórios do Reino Unido citam como estrutural, não conjuntural: a cultura organizacional da escola. Quase metade dos profissionais ouvidos pela Education Support (49%) relatou que a cultura da própria instituição contribuía negativamente para o estresse — não é só volume de trabalho, é também a falta de processo, de clareza de papel e de previsibilidade no dia a dia de quem lidera.
O que ajuda de verdade
Os mesmos estudos convergem para respostas parecidas, e nenhuma delas é “trabalhar menos horas” isoladamente:
- Tirar tarefa operacional repetitiva de cima de quem lidera. Grande parte da sobrecarga de gestão não é decisão difícil — é lançamento manual, planilha, consolidação de dado que já existe em algum lugar do sistema. Cada hora recuperada aí é uma hora a mais para a parte da liderança que exige julgamento humano.
- Distribuir a decisão, não só a execução. Escolas com conselho escolar ativo e processos participativos de escolha de gestão — a tendência que o Censo Escolar já capta no Brasil — tendem a diluir a pressão que hoje recai só sobre uma pessoa.
- Tratar cultura organizacional como parte do trabalho, não como extra. Clareza de papel, rotina de reunião previsível e comunicação interna organizada aparecem, nos estudos britânicos, como fator tão relevante quanto carga horária.
- Usar dado para decidir, não para justificar depois. Levantamentos recentes do setor de tecnologia educacional mostram que gestão orientada a dado reduz a sensação de estar sempre reagindo a crise — mas também apontam um gargalo real: menos de 1 em cada 5 educadores relata ter sido formado, na graduação, para interpretar dado de gestão. A ferramenta sozinha não resolve; formação e rotina de uso são parte do processo.
Onde a tecnologia ajuda — e onde não substitui ninguém
Parte do desgaste de quem lidera escola vem de tarefa que deveria ser automática e não é: cruzar frequência com financeiro, gerar relatório que a mantenedora pede, montar comunicado que devia levar cinco minutos e leva quarenta. É nesse pedaço específico que um sistema de gestão com inteligência artificial ajuda de verdade — não para substituir o julgamento de quem dirige a escola, mas para devolver tempo a quem mais precisa dele. Se o assunto de fundo for evasão e retenção de aluno, vale complementar com como reduzir a evasão escolar, que trata do mesmo problema de sobrecarga de informação, só que do lado do aluno.
Nenhuma dessas mudanças é mágica nem rápida. Mas o padrão nos dados é claro o bastante para não ser ignorado: quem dirige escola hoje carrega mais do que o cargo foi desenhado para suportar — e o primeiro passo prático costuma ser tirar da mesa do diretor tudo que não precisava estar lá.