Escassez global de professores: o que os dados da OCDE e da UNESCO mostram

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Há um número que tem circulado em relatório internacional de educação nos últimos meses e que vale parar para entender: o mundo vai precisar de 44 milhões de professores a mais até 2030 só para garantir educação básica universal, segundo o Global Report on Teachers, publicado pela força-tarefa internacional liderada pela UNESCO. Não é uma projeção de país pobre isolado — o mesmo problema, em proporção menor, aparece também nos relatórios mais recentes da OCDE sobre países ricos.

Este post reúne o que essas duas fontes — UNESCO e OCDE — mostram sobre a escassez de professores como fenômeno global, e o que esse retrato tem a dizer para quem administra escola no Brasil, mesmo fora das estatísticas internacionais.

A cifra que resume o problema

O Global Report on Teachers, apresentado no primeiro Summit Mundial de Professores — realizado em agosto de 2025 em Santiago, no Chile, em parceria entre a UNESCO e o governo chileno — calcula que suprir a demanda global por professores até 2030 vai custar US$ 120 bilhões por ano em novos salários. A distribuição regional da necessidade de investimento é desigual: a UNESCO estima US$ 35 bilhões para a África Subsaariana, US$ 25 bilhões para o Sul da Ásia e US$ 5,4 bilhões para Europa e América do Norte — uma diferença que mostra que o problema muda de escala conforme a região, mas não desaparece em nenhuma delas.

O relatório também traz um dado sobre o motivo da escassez que interessa a qualquer gestor: não é só que falta gente entrando na profissão, é que a taxa de abandono do magistério quase dobrou. Segundo dados da UNESCO, a taxa anual de saída de professores do ensino fundamental no mundo passou de 4,62% em 2015 para mais de 9% em 2022. Ou seja, o problema tem duas frentes ao mesmo tempo: atrair menos gente nova e reter pior quem já está.

Amina Mohammed, vice-secretária-geral da ONU, resumiu a causa dessa saída precoce ao comentar o relatório: professores jovens estão deixando a profissão nos primeiros anos por causa de “salário baixo, carga de trabalho pesada, desenvolvimento profissional limitado” e falta de reconhecimento — não por falta de vocação inicial.

Não é só um problema de país em desenvolvimento

O ponto que costuma escapar da conversa sobre escassez de professores é que ela não poupa país rico. A edição 2025 do Education at a Glance, publicação anual da OCDE que compara sistemas educacionais entre países-membros, trouxe dados de vaga não preenchida que colocam o problema em outro contexto.

Segundo o relatório, em 19 países e economias com dado disponível, a taxa média de vagas não preenchidas para professor plenamente qualificado — do pré-escolar ao ensino médio — foi de 6,5% no ano letivo de 2022/23. A variação entre países é grande: abaixo de 3% em França, Grécia, Irlanda e Israel, contra mais de 10% na Dinamarca, na Estônia e na Lituânia. Em outro recorte, com 14 países com dado disponível, 1,6% das posições de professor seguiam sem preencher e 4,9% dos professores em sala não tinham qualificação plena para a função.

Um padrão que se repete na maioria dos países analisados: a vaga não preenchida é mais comum no ensino secundário do que no primário — sinal de que a dificuldade de recrutamento cresce conforme a etapa de ensino avança. A OCDE registra essa diferença, por exemplo, na Áustria (5,1% no secundário contra 3,8% no primário), nas comunidades flamenga (2,4% contra 1,3%) e francesa (3,1% contra 1,8%) da Bélgica, na Romênia (1,9% contra 0,7%) e na Suécia (5,3% contra 4,7%).

O que alguns países estão tentando

Não existe solução pronta — se existisse, o problema já teria sido resolvido em algum lugar e copiado pelo resto. Mas a UNESCO cita, no mesmo relatório, países que testaram um mecanismo específico: pagar mais para quem aceita lecionar em área rural ou de difícil acesso. Coreia do Sul, Peru e Gambia adotaram essa política de valorização salarial diferenciada por localidade, na tentativa de atacar diretamente o ponto em que a escassez costuma ser mais severa — porque escola de área remota compete em desvantagem com escola de centro urbano pelo mesmo professor.

O que isso tem a ver com a gestão escolar no Brasil

Os números da OCDE e da UNESCO são de sistemas públicos, em sua maioria, e a realidade de rede privada brasileira não é diretamente comparável. Mas a causa que a UNESCO aponta para o abandono da profissão — carga de trabalho, reconhecimento, desenvolvimento profissional — não é um fenômeno de outro país, é um padrão que também aparece na liderança escolar brasileira: já tratamos aqui no blog do esgotamento que atinge quem dirige escola no Brasil, no Reino Unido e nos EUA, com o mesmo tipo de sobrecarga como causa comum.

O recado prático para quem gere escola, seja rede pública ou privada, é que retenção de professor não é um problema que se resolve só na hora da contratação — é sustentado (ou destruído) na rotina: quanto tempo o professor perde com tarefa burocrática que poderia ser automatizada, quanto suporte ele recebe quando um caso difícil aparece em sala, quão claro é o caminho de crescimento dentro da escola. É também aí que entra, de forma bem mais modesta do que qualquer política pública, a parte de gestão que um sistema como o EducaEinstein ajuda a organizar — tirando do professor tarefa repetitiva para sobrar tempo para o que só ele faz bem.

Um problema que não se resolve com uma manchete

Vale terminar com a mesma cautela que os próprios relatórios registram: nenhum dos dois documentos trata a escassez de professores como problema que se resolve com uma política isolada, muito menos rápido. É uma combinação de salário, carga de trabalho, formação continuada e reconhecimento — e o padrão se repete de forma parecida demais, em países ricos e pobres, para ser tratado como exceção local.